Acumulações de conchas mortas de moluscos na ilha da Ínsua (Caminha, Portugal)

João Paulo S. Cabral

Resumen


Seguindo informações recolhidas nas crónicas históricas franciscanas de Fr. Manoel da Esperança (1666) e Fr. Pedro de Jesus Maria José (1760), encontrámos no Arquivo Distrital de Braga uma transcrição (datável do século XVIII) de um documento, composto de duas partes (datadas de 1441 e 1467), sobre as conchas da ilha da Ínsua. De acordo com a primeira parte do documento, a Câmara de Caminha tinha lançado um imposto sobre as conchas que os franciscanos recolhiam na ilha. Os franciscanos protestam e conseguem que a Câmara prescinda deste imposto. Todavia, passados alguns anos, a Câmara terá lançado novamente este imposto, porque, na segunda parte do documento, a Casa de Vila Real, que detinha o senhorio de Caminha desde 1464, informa a Câmara que não pode taxar mais as conchas, dado que possuía então as rendas do concelho. Tão aguda disputa sobre este recurso natural podia resultar do facto das conchas serem muito importantes e abundantes na ilha. A importância resultaria da sua utilização como matéria-prima para o fabrico da cal (mencionada na crónica de Manoel da Esperança), então ingrediente indispensável nas argamassas usadas na construção, e quiçá, também como adubo agrícola. No intuito de confirmar a abundância de conchas na ilha e compreender a dinâmica da sua acumulação, realizámos trabalho de campo no Verão de 2010. Foram observados grandes acumulações de conchas mortas de moluscos, sobretudo nas faces oeste e sul da ilha, com uma massa total excedendo as 10 toneladas. As acumulações eram dominadas por conchas mortas de Mytilus galloprovincialis, Nucella lapillus, Patela spp. e Gibbula umbilicalis, com alguns espécimes de grandes dimensões. As conchas de moluscos estuarinos e fluviais eram residuais. Conclui-se que as acumulações observadas devem resultar da deposição de moluscos que vivem nos substratos rochosos da ilha, que, depois de mortos ou arrancados durante as tempestades, são acumulados nas pequenas baías e praias da ilha. A abundância e prosperidade dos moluscos na Ínsua estão provavelmente relacionadas com uma riqueza em nutrientes das correntes que passam pela ilha, arrastando águas do estuário do rio Minho. Os depósitos observados constituem, no seu conjunto, a maior acumulação natural de conchas mortas de moluscos marinhos da costa continental portuguesa. Trata-se de um caso raro (ou único) do uso de conchas de moluscos para o fabrico de cal no Portugal medieval. Os resultados da investigação biológica corroboraram a autenticidade do documento em análise e as crónicas históricas franciscanas.

Palabras-chave: Ínsua, Franciscanos, Moluscos, Cocnchas, Cal

Abstract:

Following information gathered in the historical Franciscan chronicles by Fr. Manoel da Esperança (1666) and Fr. Pedro de Jesus Maria José (1760), we found in Braga District Archive a transcription (probably dated from the 18th century) of a document, composed of two parts (dated 1441 and 1467), about the shells of Ínsua island. According to the first part of the document, Caminha Town Council had been levying taxes on seashells that Franciscans collected in Ínsua island. Franciscans protested and managed to have these taxes cut off. However, some years later, Caminha Town Council raised again this kind of tax, since in the second part of the document, the House of Vila Real, which owned the landlord of Caminha since 1464, informs the Town Council that could no longer tax the shells, since they then possess the rents of Caminha. Such an acute contest about this natural resource could result from the fact that seashells were indeed very important and abundant in the island. The importance was probably due to their use in lime manufacture (mentioned by Manoel da Esperança), at that time an indispensable ingredient to prepare mortars used in buildings, and probably also as an agricultural fertilizer. In order to check seashells abundance at Ínsua and understand their dynamic accumulation, we carried out field work in the summer 2010. Big accumulations of dead mollusc shells were indeed found, mainly in the west and south sides of the island, with a total mass exceeding 10 tons. Shells of Mytilus galloprovincialis, Nucella lapillus, Patella spp. and Gibbula umbilicalis, dominated the deposits, with some specimens of big size. Estuarine and fluvial molluscs were residual. It was concluded that these accumulations probably result from molluscs that live in the rocks surrounding the island and are released from the substrate after dead or strong tempests. The abundance and prosperity of the molluscs of Ínsua island are probably related with high levels of nutrients of currents that run along the island, dragging waters from river Minho. In the whole, these deposits form the biggest natural accumulation of dead seashells in the Portuguese continental coast. This is a rare (or unique) case of the use of seashells for lime production in medieval Portugal. Results of the biological research program support the authenticity of the document analyzed and of the Franciscan chronicles.

Keywords: Ínsua, Franciscans, Molluscs, Seashells, Lime

Resumen:

De la información recogida por las crónicas históricas franciscanas de Fray Manuel da Esperança (1666) y Fray Pedro de Jesús María José (1760), encontramos en el Archivo del distrito de Braga una transcripción de un documento del siglo XVIII compuesto de dos partes (fechadas en 1441 y 1467) sobre las conchas de la isla de Insua. De acuerdo con la primera parte, la alcaldía de Caminha estuvo grabando impuestos a las conchas que los monjes franciscanos recogían en Insua. Los franciscanos protestaron y lograron detener los gravámenes. No obstante, años después la alcaldía volvió a imponer dicho impuesto, ya que en la segunda parte del documento, la casa de Vila Real, que poseía el Señor de Caminha desde 1464, informaba a la alcadía, ya que es él quien posee las rentas de Caminha. Tal conflicto en torno a este recurso natural remite a la importancia y abundancia de las conchas en esta isla. Dicha importancia derivaría de su uso en la confección de cal (lo cual menciona Manoel da Esperança), un ingrediente indispensable en la época en la preparación de mortero –necesario para la construcción– así como su uso en agricultura como fertilizante. Para confirmar la abundancia de conchas en Insua y comprender la dinámica de las acumulaciones, se realizó un trabajo de campo en el año 2010. Se constataron grandes acúmulos de conchas, especialmente en las zonas occidental y meridional de la isla, con masas que superaban las 10 toneladas. Los acúmulos estaban dominados por cuatro taxones (Mytilus galloprovincialis, Nucella lapillus, Patela spp. y Gibbula umbilicalis), con algunos ejemplares alcanzando tallas muy notables. Los moluscos fluviales y de estuario eran minoritarios. Se concluye que estos acúmulos derivan de ejemplares locales que las tempestades y la mortandad natural se ocupan de agrupar. La abundancia y riqueza del recurso se debe a la localización de la isla, donde las corrientes mezclan aguas ricas en nutrientes, en especial las que aporta el río Miño. En conjunto, estos concheros constituyen los más importantes de la costa continental portuguesa. Su uso es un caso raro (o único) de uso de conchas para la producción de cal en el Portugal medieval. Los resultados del estudio biológico validaron la autenticidad del documento analizado y de las crónicas franciscanas. PALABRAS

Palabras clave: Ínsua, Franciscanos, Moluscos, Cochas, Cal

 


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Archaeofauna, International Journal of Archaeozoology

ISSN: 1132-6891